Era uma manhã fria como muitas outras nas ruas da capital, e David caminhava por entre os prédios citadinos. Fumegando, arrastava vagarosamente o corpo em direcção aos escritórios. Lá o aguardariam certamente os colegas para festejar o primeiro ano de trabalho na firma, pensou ele ao passar pelo porteiro. Entrou no escritório. Sentou-se. Nada. Passou o meio dia. Ninguém se tinha lembrado...
- Mais um dia de transparência social, verificava penosamente David.
Recentemente, tinha tornado hábito almoçar com a estagiária da firma, com quem trocava em tom ligeiro, conversas de política. No entanto, a sua parceira de refeição não se encontrava na empresa à hora do almoço. Achou estranho, mas não ligou. Seguiu sozinho.
Quando voltou ao escritório, achou os colegas distantes. Mas, em vez de concernar a mente, David fez o que faz de melhor : trabalhar. Fecha os olhos antes de começar...
David faz parte daquela geração de crianças cujos pais acabam por casar porque o filho vem à luz antes do previsto. No seu caso, para além da sua precoce vinda ao mundo, contava com pais completamente diferentes. Ele era a única coisa que tinham em comum. Com o pai, tinha sido habituado a ser pouco condescendente e a criticar o quotidiano. Já a mãe, havia-o ensinado a manter sempre um sorriso nos lábios, mesmo perante as maiores adversidades. Quando tinha cinco anos, o pai, trabalhador numa central eléctrica, morreu. A mãe, solteira, viveu com ele até entrar em coma repentinamente. David tinha 16 anos. Quando completou os 18, rumou para Coimbra onde se fez advogado.
...Reabre os olhos. O som de Blues desperta-o. Assusta-o o facto de não estar no escritório, e ainda mais, o de estar deitado na cama de um quarto que lhe é estranho. Ao levantar-se, não encontra a porta que o levava à casa de banho, por isso, sai do quarto e entra na porta mais próxima. Descobre uma sala repleta de espelhos. Quando se vê reflectido no vidro vê um velho enrugado, do qual reconhece pequenos traços de um jovem que já não era. Telefonou às urgências. Depois de sujeito a uma sequência de exames, um médico de aspecto altivo recebeu-o. Questionou-o sobre actualidade. Durante a conversa ia frazindo a testa, e depois de alguns minutos, saíu do gabinete. Enquanto esperava o regresso do doutor, um outro médico entrou.
- Bom dia, Sr. Pedrosa, disse o médico.
O diagnóstico é um pouco delicado...
- O que se passa comigo doutor? Porque me vejo como um velho? Porque estou com estas alucinações?
- Bom, parece-me que o problema é mais grave que uma simples alucinação.
Não estranhou nada em seu redor?
- Já que pergunta, acho estranho não ter o “Salazar” pendurado na parede.
E esse enorme quadro luminoso que tem à sua frente também é um tanto estranho.
- Imagino que lhe faça confusão... Isto é um monitor de computador.
Tem ideia do ano em que estamos?
- 1962!
- Bom, na realidade hoje é sexta-feira e o ano é o de 2001.
Não há uma maneira fácil de lhe explicar isto, por isso, aqui vai. Você sofre de esquizofrenia, e pode mudar de personalidade de um momento para o outro. È muito raro assumir uma personalidade durante tanto tempo, mas acontece. No seu caso, assumiu durante quase durante 40 anos...
- Como é isso? Estamos em 2001? Como é possível?
- Bom, normalmente estes casos têm uma razão psicológica. Por vezes, um acontecimento mais dramático pode levar a mente a criar mecanismos de defesa e apagar literalmente da memória o sucedido. O modo mais fácil que a sua cabeça arranjou, foi criar uma nova personalidade.
Aparentemente, durante 39 anos uma “outra pessoa” viveu a sua vida, e hoje, por uma razão que desconheço, voltou a ser quem era em 1962. Estamos em crer que esta é a personalidade original.
- Mas isto não é possível! Eu não vivi a vida! Eu não tenho nada! E perdi anos! Muitos anos! Não quero acreditar nisto! Não posso!
- Acalme-se, acalme-se. Eu sei que é muito difícil habituar-se à ideia, mas nem tudo são desgraças. Decerto que tem uma família ansiosa à espera em casa, que lhe explicará o que fez durante todos estes anos.
Sai aterrorizado do gabinete, e à saída do centro de saúde lembra-se dos sonhos, expectativas e desejos que tinha traçado para a sua vida.
- Será que os realizei? – pensava ele.
Chega a casa. Vazia. Percebe que não tem fotos, molduras, ou quadros em lado algum. Estranha o facto e procura uma agenda. Não encontra nenhuma. Toca então a porta do vizinho, pergutando-lhe se o podia ajudar.
- Quem é o senhor?Eu conheço-o?
Desespera cada vez mais, até que começa a sentir uma forte pancada no coração. Cai pesado no chão. As convulsões começam. O corpo está tão rijo, que não consegue mexer um músculo. A dor tornou-o afónico. A ajuda não vem... Passa o tempo e lentamente, o ritmo cardíaco afrouxa. No limiar da vida, grita : “Quem sou?!”. Não tem resposta. Os olhos cada vez mais pesados fecham...
...Voltam a abrir-se. Acorda em cima processos numa secretária de carvalho. A seu lado encontra a máquina de escrever que tantas vez utlizara no trabalho. Percebe que tudo não passava de um sonho, e volvidos alguns segundos um grupo de jovens advogados e outros mais antigos irromperam no escritório felicitando-o, e desejando-lhe as melhores felicidades para o futuro.
Desde então, e por causa do sonho, David passou a viver cada dia como se fosse o último, tentando disfrutar ao máximo tudo o que a vida lhe pudesse dar. Passou a viver segundo o Carpe Diem.
Quando se vive a vida ao máximo, a tristeza morre só, e a felicidade é concedida a mais um entre muitos que desconhecem o poder dos sonhos...










